A guerra Civil Espanhola terminou no dia 1 de Abril de 1939, colocando fim a um conflito tenebroso, naquela que foi a ante câmara do que sucederia passados alguns meses na Europa. Passaram 78 anos desta tragédia, mas apesar do tempo passado, os seus fantasmas continuam bem vivos...
A minha família, tal como muitas outras, também passou pela guerra, felizmente sem vítimas a registar, embora o meu bisavô por pouco não tenha sido fuzilado por falangistas. Apesar de ser a favor de Franco e contra as ideias demasiado progressistas da República Espanhola, era acima de tudo um humanista, que defendia que se devem combater e debater as ideias, nunca os homens, razão pela qual tinha um amigo comunista a quem deu trabalho e guarida durante a guerra. Apesar de quase pagar com a vida esse gesto, que poderia colocar em perigo toda a família, nunca se arrependeu do que fez, e a história de amizade continuou até ao fim das suas vidas, apesar de politicamente terem ideias opostas.
Infelizmente na maioria dos casos as famílias não atravessaram a guerra de forma tão pacífica. Muitos (em Espanha e também fora de Espanha) ainda carregam os fantasmas de uma guerra que terminou há 78 anos, havendo muitas famílias não tiveram a sorte de sobreviver à guerra nem aos anos que se seguiram, e outras continuam sem poder sepultar os seus familiares desaparecidos durante e após a guerra.
Já acompanho há muitos anos o que se passa na Catalunha e em Espanha, os anos suficientes para conseguir ver para além do que parece óbvio, e para ver de que forma os independentistas se aproveitam dos fantasmas do passado de Espanha, usando a mesma estratégia que os nacionalistas usaram para destruir a Jugoslávia. Vitimização, invenções históricas, delírios de grandeza perdida, opressão, repressão, perseguição e ameaças às vozes discordantes que se opõem aos independentistas.
O que os independentistas pretendem nunca foi um referendo, O que pretendem é a independência e a soberania da Catalunha sobre Aragão, a Comunidade Valenciana e as ilhas Baleares, aquilo que eles chamam de "paisos catalans"!
Hoje, com a declaração de independência e a activação do artigo 155º, que suspende a autonomia da Catalunha, abre-se um novo ciclo na Península Ibérica e em Espanha. Pessoalmente, é também um dos dias mais tristes da minha vida...
Prevejo dois cenários para o que se vai passar no curto prazo:
Com a activação do artigo 155, o Estado Espanhol dissolve o Parlament e o Govern da Catalunha, retirando a tutela dos Mossos D´Esquadra à Generalitat e enviando a Guardia Civil e as forças anti.-distúrbio em massa. Por seu lado, os partidos independentistas iniciarão o seu plano de resistência e sublevação, procurando capturar pontos estratégicos como o aeroporto de Barcelona, edifícios governamentais, esquadras de polícia e os meios audiovisuais, o mesmo se aplicando às restantes localidades da Catalunha. Se o Estado Espanhol não recuperar o controlo da Catalunha, irá enviar as Forças Armadas, e isso dará início a uma guerra civil, passados 78 anos de paz e quase 40 de Democracia em Espanha, e o regresso do ódio, destruição e morte a Espanha, e a destruição das economia espanhola e por arrasto, da portuguesa. Este é o cenário a que chamo de Tempestade perfeita.
O outro, mais optimista, antevê que o Estado Espanhol tenha o controlo dos Mossos D´Esquadra e que esta força policial, em conjunto com a Guardia Civil e as forças anti distúrbio reponham a normalidade constitucional, e que o povo da Catalunha na sua maioria não apoie a independência. Neste cenário, o controlo dos Mossos D ´Esquadra e o comportamento da população é essencial, pelo que é um cenário com mais incertezas que certezas. No entanto, caso este cenário seja o cenário que se irá desenrolar, irá dar lugar a novas eleições, possivelmente um governo de unidade e por fim o levantamento da suspensão da autonomia da Catalunha.
Em qualquer dos casos, já é palpável o clima de tensão entre independentistas e não independentistas na Catalunha e em Espanha. Já há divisão e conflitos pessoais entre as pessoas, mesmo dentro das famílias, pelo que a fractura social já é visível. É uma questão de tempo até este clima de tensão degenerar em ódio e violência...
Tudo o que um dia previ e temia está a acontecer diante dos meus olhos...Não é difícil imaginar como me sinto por ver toda esta cadeia de acontecimentos, e não poder fazer nada. Independentemente do que aconteça a seguir, espero que a humanidade e a tolerância prevaleçam sobre o ódio e a barbárie como aconteceu na minha família, durante os anos tenebrosos da guerra e da ditadura franquista, e que o cataclismo de 1936/1939 não se repita.