quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O "assalto" à margem esquerda do Rio Eufrates

Depois do Exercito Árabe Sírio (SAA) colocar um ponto final no cerco às tropas sitiadas de Deir Ez-zor há umas semanas, deu-se início a uma nova fase da guerra.

Com a situação operacional no sul sob controlo, acabando com a iniciativa do Daesh, colocando-as em posição defensiva, prevê-se que a SAA opte por fazer um movimento envolvente em torno das forças do Daesh localizadas na cidade de Deir Ez-Zor em detrimento da luta urbana, evitando desgastar as suas forças numa batalha que à partida já venceu, focando-se na conquista da margem esquerda do rio Eufrates e no avanço em direcção à fronteira com o Iraque.

Situação operacional nos arredores de Deir Ez-Zor no dia 21 de Setembro de 2017

                                Fonte: Syrian civil war map

Soube-se que no dia 18 de Setembro as forças Tigre, comandadas por Suheil al-Hassan (um dos comandantes mais famosos da guerra civil na Síria), e apoiadas por elementos das forças especiais e força aérea russa, atravessaram com sucesso o Rio Eufrates perto do aeroporto de Deir Ez-Zor, conquistando Sabhah e Mazlum (esta anunciada há momentos).
Segundo informação veiculada pelo canal de Youtube Southern Front, o avanço da SAA tem sido dificultado pelo aumento do caudal do rio, provocado pelas descargas provenientes das barragens controladas pela SDF na zona de Al - Tabqah, por vários ataques suicidas do Daesh e por ataques provenientes do território controlado pela SDF (ver vídeo aqui), o que já levou a Rússia a lançar um aviso de que iria atacar as forças apoiadas pelos EUA (a SDF aceitou, há alguns meses, supostamente a pedido dos EUA, a inclusão de tropas da FSA (Exército Livre Árabe) no seu território para apoiar o ataque ao Daesh, circulando no Reddit a informação de que o ataque às tropas da SAA teria sido lançado por elementos afectos à FSA) caso as suas tropas fossem provocadas, por todos os meios disponíveis (ver artigo aqui).

Situação operacional na província de Deir-Ez-Zor no dia 21 de Setembro de 2017

                                Fonte: Syrian civil war map


Já as Forças Democráticas Sírias (SDF) iniciaram o ataque ao Daesh no dia 8 de Setembro,  em direcção à Zona a leste da cidade de Deir Ez-Zor, na margem esquerda do Rio Eufrates, tendo conquistado o quartel da brigada 113, nos arredores da vila de Al-Salihyah, e iniciando um ataque em direcção a As Suwar, apoiadas por ataques aéreos da Coligação (França, EUA e Reino Unido).

A razão deste avanço, quando a SDF está empenhada na conquista da cidade de Al-Raqah, prende-se com a tentativa de conquistar os poços de petróleo da província de Deir Ez-Zor, procurando estabilizar o flanco esquerdo do seu ataque com a conquista de As Suwar.

Localização dos poços de petróleo na província de Deir Ez-Zor

Fonte: GIsrael

A margem esquerda do rio Eufrates, altamente estratégica devido aos recursos petrolíferos que tem, é o principal "alvo de disputa" entre as forças da SDF  e da SAA.

No artigo do Financial Times"Inside Isis Ink: The journey of a barrel of oil", publicado em 2015, foi feito um trabalho de investigação sobre as receitas do Daesh provenientes da extracção de petróleo, tendo-se concluído que a sua principal fonte de receita provinha da província de Deir Ez-Zor, estimando-se a produção de petróleo proveniente da província se situe entre os 34.000 e os 40.000 barris de petróleo por dia (para além da produção de gás natural, estimada em 441 MMCF/D (Milhões de pés cúbicos por dia) de capacidade estimada segundo o artigo da EIA (Energy Industry Administration).
Os principais campos de petróleo em disputa são Al-Tanak, Al-Omar e Al-Taim, e têm uma produção entre os 17.400 e os 21.600 barris de petróleo.

 Localização dos poços de petróleo na província de Deir Ez-Zor



                                    Fonte: Financial Times



Localização das principais infraestruturas energéticas na Síria

                               Fonte: EIA

Quando  o Daesh conquistou o território, e, uma vez que as refinarias de petróleo da Síria estão localizadas em Banias e Homs, longe do alcance das suas forças, o Daesh decidiu construir refinarias móveis para refinar o petróleo. Estas refinarias móveis também são um activo a capturar pelos dois lados, pois a infraestrutura entre Deir Ez-Zor (oleodutos e gasodutos) e as refinarias encontra-se destruída, necessitando de investimento, pelo que capturando as refinarias móveis se poderia iniciar a refinação de petróleo enquanto a reparação dos oleodutos e gasodutos decorre.

Localização das refinarias móveis na Síria
                                    Fonte: Financial Times


Embora produção de petróleo e gás natural seja irrisória quando a comparamos com a produção de 5 milhões de barris por dia do campo de Al- Ghawar na Arábia Saudita (ver aqui), a sua captura é essencial para as forças de Al-Assad e para a SDF, de forma a reconstruir o país, assegurando não só o acesso a uma receita de exportação vital para assegurar a revitalização económica e o acesso a fundos monetários necessários para iniciar a reconstrução do país, mas também, no caso de Al-Assad, suprir as necessidades de consumo interno de petróleo, uma vez que o território controlado pelo Governo Sírio, que se viu privado do petróleo após a conquista do leste da Síria pelas forças do Daesh, é actualmente fornecido pelo Irão.

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